|
ARTIGO TÉCNICO
PUBLICADO NO PORTAL "ENERGIA HOJE"
Autoprodução
para todos
Por Cyro Vicente Boccuzzi
Ao mesmo tempo em que continuamos construindo hidrelétricas
imensas aqui no Brasil, o mundo planeja o futuro com redes elétricas
inteligentes. Uma das principais mudanças previstas é a adoção
cada vez mais freqüente de geradores de pequeno porte para a
produção local e distribuída de energia elétrica. Esse tipo de
solução já vem sendo progressivamente adotado com sucesso em
diversas regiões do mundo, principalmente visando à introdução
de fontes limpas de energia. O sistema também possibilita uma
ampla redução das perdas do setor elétrico.
A autoprodução de eletricidade
em pequena escala para atendimento de uma residência, edifícios
ou pequeno comércio pode ser obtida por meio de sistemas a gás
natural, microturbinas eólicas ou placas para captação de
energia solar. Em breve, será possível também gerar energia
comercialmente através de células de hidrogênio.
Esses sistemas já estão se
tornando realidade. Em São Paulo, por exemplo, já há plantas de
cogeração a gás natural em funcionamento em diversos shoppings,
hotéis e outros edifícios comerciais. Nesses projetos, além da
geração de eletricidade, normalmente existe a produção de água
quente, água gelada e ar condicionado. Dessa forma, além de
oferecer uma garantia para o consumidor contra eventuais falhas na
rede elétrica da concessionária de distribuição, esse tipo de
empreendimento permite uma maior eficiência no aproveitamento do
gás natural em comparação com seu uso em grandes termoelétricas
apenas para produção de eletricidade.
A ampliação do uso desses
sistemas será favorecida pelo desenvolvimento recente de baterias
de alta capacidade, que permitem o armazenamento de expressivas
quantidades de energia gerada para consumo posterior. Sobre isso
é importante destacar que a combinação dessas baterias com os
sistemas de geração local torna possível o uso de redes
internas em corrente contínua. Com isso, não será mais necessária
a presença dos transformadores e fontes hoje invariavelmente
incluídos nos eletroeletrônicos, reduzindo as perdas de
eletricidade normalmente registradas dentro das residências e no
uso final da energia.
Outro efeito da adoção dos
sistemas locais de geração de energia é a formação de grupos
de microrredes elétricas, por meio da interligação dos sistemas
dos diversos autoprodutores. Isso proporciona maior robustez e
complementariedade de suprimento entre esses vários agentes,
aumentando a eficiência global do sistema. Nesse cenário, a rede
elétrica da concessionária entra apenas para fornecer o
excedente que eventualmente as gerações locais não possam
suprir.
Falta pouco para que tudo isso se
torne realidade. Um dos pontos fundamentais é o aprimoramento da
regulação dos serviços de eletricidade. Isso porque a legislação
brasileira ainda não prevê a possibilidade de que os proprietários
de instalações de geração local forneçam os excedentes de
energia à rede de distribuição.
Resolvida essa questão de cunho
legal, a popularização dos equipamentos de microgeração é
apenas uma questão de tempo. A tendência é que a escala de
produção desses equipamentos aumente, tornando-os mais acessíveis
e viabilizando sua popularização.
Afinal, esses sistemas de geração
local fazem parte de uma realidade que vem para ficar. No atual
contexto de mudanças climáticas, as restrições ambientais e os
preços crescentes dos combustíveis tornam urgente a necessidade
de se adotar um novo paradigma de consumo e produção de energia.
Esses temas serão discutidos no Fórum
Latino-Americano de Smart Grid, que acontece nos dias 10 e 11 de
novembro em São Paulo. Na ocasião, será possível conhecer o
que já existe sobre o assunto no mundo, incluindo experiências
concretas de implantação de sistemas do tipo em larga escala. As
discussões também abordarão padrões tecnológicos adotados,
aspectos regulatórios, condições necessárias de financiamento
de infra-estrutura e modelo de negócios
|